30 de setembro de 2012

O OUTRO LADO DO ARCO-ÍRIS


Foto: Aguinaldo Tinoco de Paula
Sonhei que voava até ao céu
E te levava nos meus braços.
Acordei. Não estavas lá.

Fez-se meu sonho em estilhaços
Quebrou-se o feitiço da paixão!
Rasgadas em mil pedaços
As asas da fantasia caíram no chão.
Levantei-as com ternura
Consertei-as com dedicação.

Vem comigo
Aquietar as mágoas do passado
Colorir o presente de verde vivo
que é esperança no futuro!
Esconde-se algures um abrigo
um repouso, o porto seguro...
Dá-me a tua mão
Vem comigo por este caminho.
  
Não disseste sim
nem disseste não
Suspenso na tua própria incerteza
Ficaste!
Hesitação, desânimo
Silêncio incerto
És laço que embaraça a magia.
Abandono, desapego
Olhar deserto
Tu és grilhão do meu voo
Cativeiro da minha fantasia!

Não digas sim
Não digas não
Suspenso na tua própria incerteza,
Fica!
Não quero mais tropeçar
Nesse teu desacerto atormentado
Eu quero partir
Para lá deste turbilhão de emoções
Rodopio de enganos e desenganos
Desalentos, contradições.
Eu quero tecer meu próprio destino
Livre de mentiras e fingimentos
Traições.

Do outro lado destes dias cansados
Eu quero inventar a melodia
Que cale meu canto triste
Do outro lado deste tempo inquieto
Eu quero sonhar o recanto secreto
Refúgio de afagos e afectos
Sossego da ausência que dói em mim.
Eu quero voar para o outro lado do arco-íris
Viver o romance que amanse esta saudade sem fim!
ec
Maio.2005

10 de setembro de 2012

REGRESSO... OU PARTIDA PARA NOVO VOO



Ainda menina
frágil criança
mulher a desabrochar
firme
ousaste acordar o sonho
entorpecido entre medos e incertezas
e com a mala cheia de esperança
partiste
no trilho da diversidade
da mudança
à procura de outro lugar para ser
pensar
sentir
crescer
aprender.... a vida!


Está de volta o voo que te levou
Na rota de novas descobertas
Terás soltado amarras,
Vencido desafios
Aberto portas fechadas dentro de ti,
Que a tua chegada seja nova partida
mais uma jornada que começa
outro dia,
outra aventura
esperança que renasce
Promessa!


Idas e vindas,
chegadas e partidas
encontros e desencontros,
despedidas
encantos e desencantos,
fantasias
matizes que dão cor à tua viagem!


Que a magia do teu voo não esmoreça
e o brilho no teu olhar nunca se desvaneça
a força dos teus sonhos será farol
o eco da tua gargalhada
alento
alegria
inspiração
estrela que te guia
nos mistérios da vida!


Para a Sara, a minha princesinha,
que regressa de mais um voo
(da Finlândia)
Junho/2010

1 de setembro de 2012

A VIDA DÓI E O TEMPO CANSA

Foto: Alfredo Cunha


Numa rua qualquer, duma cidade que entardece, apressada, gente que sobe, gente que desce, gente que corre, cansada.
Já tarda a chegada ao aconchego do lar, já se adivinha o aroma quente do jantar. 
Qualquer que seja a cidade, qualquer que seja a rua, a verdade é que a vida dói e o tempo cansa, quando a gente se põe a olhar em volta, quando a gente se põe a pensar. 
Foto: Alfredo Cunha

Dói aquela mulher a quem a vida maltratou. 
Andrajosa, de cabelos hirtos e desgrenhados, mãos enegrecidas pelas lixeiras, que mexe e remexe, volve e revolve, na ânsia de encontrar os restos, sobejos, sobras da  gente que passa, migalhas que sosseguem a fome que traz escrita na boca.

 
Dói aquela menina, infância rasgada pela desdita. Menina franzina, de mágoa e palidez no olhar, menina ruína, pequena nuvem a chorar, a quem a adversidade se apressou a fazer mulher, que espera, e desespera, um pedacinho de sorriso, um afago, ainda que fugaz, que aquiete o medo, o queixume, a injúria, nódoa vil que traz cravada no corpo.



Dói aquele homem
dói aquela mulher
sepultados na vida pela guerra que não entendem, por ignóbeis e sórdidos conflitos alheios, que não querem.
Foto: Alfredo Cunha

Sonhos entorpecidos por gritos que ensurdecem,
morte
caos
estrondos
que nunca adormecem.

Explosão que deflagra,
destruição que alastra,
lábios sedentos da água que não há, corpos famintos do pão que não têm. Escuridão é a cor das suas existências sem vida, desesperança é o revés a que se resignam.
  
Dói a lágrima de quem sofre a desventura, o olhar perdido de quem não encontra o caminho, o braço estendido de quem mendiga uma réstia de paz, uma migalha de carinho, sobra de pão, nesga de sol, afeição.

Imagine: John Lennon
Qualquer que seja a cidade
qualquer que seja a rua
a verdade é que a vida
dói e o tempo cansa 
quando a gente se põe a olhar em volta
quando a gente se põe a pensar

Se o olhar 
em cada homem  encontrar um irmão
se o braço que ataca pode abraçar
se mão que agride pode acariciar
se um sorriso aquece
e um beijo enternece
se a palavra à guerra for NÃO
então a paz acontece
a paz não é uma ilusão!

ec
Julho-2007