30 de dezembro de 2012

FEITICEIRA

   Luis Represas 
   De que noite demorada
   Ou de que breve manhã
   Vieste tu, feiticeira
   De nuvens deslumbrada

   De que sonho feito mar
   Ou de que mar não sonhado
   Vieste tu, feiticeira
   Aninhar-te ao meu lado

   De que fogo renascido
   Ou de que lume apagado
   Vieste tu, feiticeira
Segredar-me ao ouvido
De que fontes de que águas
De que chão de que horizonte
De que neves de que fráguas
De que sedes de que montes
De que norte de que lida
De que deserto de morte
Vieste tu feiticeira
Inundar-me de vida

Galiza: Junho 1999

28 de dezembro de 2012

RECOMEÇAR

 
Maio 2000
Dia da mãe no ATL


Um manto tingido de saudade
Caiu sobre a estrada por onde seguia…
Nas bermas as flores murchavam
Nos céus as nuvens choravam
Meu desalento
Minha dor
Minha inquietação
Procurei risos e sorrisos
Em vão!

Lá fora
O tempo corria
Em alvoroço
Desassossego
Rodopio que doía
Fechei as janelas, bem fechadas
Mas uma abriu-se, de mansinho...
Uma pequena princesa dava-me a mão
Réstia de luz a iluminar o caminho
Nesga de sol a aquecer a minha solidão!

Uma andorinha esvoaçou
E em alegres chilreios anunciou
Que depois do mais triste Inverno
A paisagem se veste de matizes de esperança
Sempre!

ec
Dez-2004

28 de novembro de 2012

A CONFISSÃO DA LEOA

 

MIA COUTO


  ... sobre homens e mulheres vivendo em condições extremas. Como afirma um dos personagens,       "aqui não há polícia, não há governo, e mesmo Deus só há às vezes".

... como a guerra, a fome, a superstição, podem transformar os homens em animais selvagens: "foi a vida que a desumanizou. Tanto a trataram como um bicho que você se pensou um animal".

 

 Até que os leões inventem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça.
Provérbio africano

De ossos e Sol, não de vida, se faz o Tempo. Porque a Vida é feita contra o Tempo. Sem medida, tecida de ínfimos infinitos.

Tem cuidado com os leões. Mas tem mais cuidado ainda com a cabra que vive no covil dos leões.
Provérbio africano

Na guerra, os pobres são mortos. Na paz, os pobres morrem.

Quando as teias de aranha se juntam elas podem amarrar um leão.
Provérbio africano

16 de novembro de 2012

A VIDA É UMA TAPEÇARIA

Os disparates que já fiz estão na tapeçaria, são inapagáveis, mas não vou carregar com eles até morrer. Aquilo que está feito, feito está; tenho de olhar para a frente.
(...)
Vimos ao mundo com determinadas cartas na mão e fazemos o nosso jogo; com naipes similares, uma pessoa pode soçobrar e outra superar-se.
(...)
Se o teu destino é nascer cega, não és obrigada a sentares-te no metro a tocar flauta, podes desenvolver o olfacto e tornares-te enóloga.


Em Chiloé
não há combustível para fogueiras de desespero.
Nesta casa de madeira de cipreste o coração serena


(...)

ilha onde a vida flui como um rio manso,
há ar puro,
silêncio
e tempo para terminar os pensamentos.




O Caderno de Maya
Isabel Allende

9 de novembro de 2012

A MINHA FAMÍLIA É UMA AUTÊNTICA FLOR

 
ALBUM DE FAMILIA
Por Sara, em 1999
(TPC) 
 




Também todas estas "flores",  que são a tua família, te adoram!




6 de novembro de 2012

NA HORA DE PÔR A MESA

  
JOSÉ LUÍS PEIXOTO
a criança em ruínas
  
na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu, depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais



nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


Foto: Guga  (1999)

25 de outubro de 2012

A MENINA COM NOME DE FLOR

Naquele dia, a vida parecia sem graça, não havia escola e chovia lá fora.

Dulce sonhava com o aconchego do seu quarto, com os afagos de sua mãe. O que ela gostava era de ficar no sossego da sua casa, até à hora de ir para a escola.

Ali, onde ficava, enquanto a mãe trabalhava, parecia-lhe um cativeiro, enfadonho e rotineiro. Dulce ficava entediada e nenhum jogo a animava. Aborrecia-se com a algazarra dos seus companheiros, agastava-se com a sua traquinice. Como a enfadava tanta tagarelice!

Naquele dia, a vida parecia sem graça, não havia escola e chovia lá fora.

Alguém bateu levemente à janela. Dulce voltou-se e viu uns olhitos tristes num rosto de menina colado ao vidro embaciado. A menina esboçou um sorriso pálido e acenou um adeus a Dulce, que lhe retribuiu, sem entusiasmo.
No rosto da menina, colado ao vidro embaciado, rolaram duas gotinhas de água transparente. Chuva? Lágrimas?

Naquele dia, a vida parecia sem graça, não havia escola e chovia lá fora.

Soprou uma brisa mais forte e a menina partiu num passo lento e hesitante, talvez à procura do seu caminho, talvez à espera que a chuva parasse.
Enquanto a menina se afastava, Dulce ficou a pensar. Quem seria aquela menina? Porque estaria tão triste? Não andava ela livremente na rua? Não podia escolher o que queria fazer e com quem queria brincar?

Dulce pensava, mas não compreendia o que impedia aquela menina de se rir.
Talvez um dia a voltasse a encontrar e lhe pudesse perguntar, talvez um dia a menina lhe pudesse explicar.

Naquele dia, a vida parecia sem graça, não havia escola e chovia lá fora.

Um dia, numa rua onde passava, Dulce encontrou a menina dos olhitos tristes, à janela do bairro onde morava.

Contente por encontrá-la, Dulce perguntou e a menina explicou, que às vezes a vida parecia sem graça.


Sempre em casa, cuidava do seu irmão mais pequenino, que não podia ficar sozinho.
Sempre em casa, limpava, lavava e cozinhava, enquanto a sua mãe se ausentava para trabalhar.
Sempre em casa, raramente ia à escola, pouco brincava, não jogava à bola. Sempre em casa...

Porém, nesse dia, à janela do bairro onde morava, os olhitos da menina estavam diferentes. Pareciam duas estrelinhas a piscar, contentes.

Surpreendida, Dulce perguntou e a menina explicou que a vida, afinal, tem muita graça.
Tem o Sol que aquece os dias e as Andorinhas a entoar lindas melodias.
Tem o Vento a sussurrar-nos os seus segredos e fadas boas que afastam os nossos medos.
Tem as Estrelas que nos sorriem, docemente, e a Lua a fazer-nos caretas, contente.
Tem príncipes e princesas que vivem nos nossos sonhos e duendes a brincar na noite, risonhos.
Tem o Céu azul, arco-íris alegres e coloridos, as searas douradas, ondulantes, e os campos floridos. Tem as cidades, os mares, os riachos e os rios e cada dia que passa surpreende-nos com a sua magia, com a sua graça.

Dulce recordou os olhitos tristes num rosto de menina colado ao vidro embaciado, no dia em que a chuva caía. Porquê?

Dulce perguntou e a menina explicou.

Há espaços tão alegres e divertidos, com tantos jogos e brinquedos, tantos livros de lindas histórias; com tantos risos de meninos e meninas, tanto tempo só para traquinar e tantos amigos para tagarelar.
Ah, quem me dera aí ficar enquanto a mãe vai trabalhar!

E, a menina acrescentou que não podia e não valia a pena chorar.
Afinal, a vida tem tanta graça.
Qualquer que seja o lugar, guarda tesouros secretos que podemos procurar, esconde mistérios raros que podemos desvendar.
Cada dia que passa, há uma nova aventura para viver, outra fantasia para sonhar.

Afinal, a vida tem tanta graça, cada dia que passa, qualquer que seja o lugar, a vida está cheia de lindas flores, de muitos aromas e de muitas cores, como a do seu nome – ROSA.

Para a Sara,
que, desde os 9 meses, chora
 quando fica no Infantário / ATL 
ec (Set-1999)

3 de outubro de 2012

CAZUZA

    UM TREM PARA AS ESTRELAS
     Cazuza e Gilberto Gil

    São 7 horas da manhã
    Vejo Cristo da janela
    O sol já apagou sua luz
    E o povo lá embaixo espera
    Nas filas dos pontos de ônibus
    Procurando aonde ir
    São todos seus cicerones
    Correm pra não desistir
    Dos seus salários de fome
    É a esperança que eles tem
    Neste filme como extras
    Todos querem se dar bem

  Num trem pras estrelas
  Depois dos navios negreiros
  Outras correntezas

  Estranho o teu Cristo, Rio
  Que olha tão longe, além
  Com os braços sempre abertos
  Mas sem proteger ninguém
  Eu vou forrar as paredes
  Do meu quarto de miséria
  Com manchetes de jornal
  Pra ver que não é nada sério
  Eu vou dar o meu desprezo
  Pra você que me ensinou
  Que a tristeza é uma maneira
  Da gente se salvar depois
  Num trem pras estrelas
  Depois dos navios negreiros
  Outras correntezas

30 de setembro de 2012

O OUTRO LADO DO ARCO-ÍRIS


Foto: Aguinaldo Tinoco de Paula
Sonhei que voava até ao céu
E te levava nos meus braços.
Acordei. Não estavas lá.

Fez-se meu sonho em estilhaços
Quebrou-se o feitiço da paixão!
Rasgadas em mil pedaços
As asas da fantasia caíram no chão.
Levantei-as com ternura
Consertei-as com dedicação.

Vem comigo
Aquietar as mágoas do passado
Colorir o presente de verde vivo
que é esperança no futuro!
Esconde-se algures um abrigo
um repouso, o porto seguro...
Dá-me a tua mão
Vem comigo por este caminho.
  
Não disseste sim
nem disseste não
Suspenso na tua própria incerteza
Ficaste!
Hesitação, desânimo
Silêncio incerto
És laço que embaraça a magia.
Abandono, desapego
Olhar deserto
Tu és grilhão do meu voo
Cativeiro da minha fantasia!

Não digas sim
Não digas não
Suspenso na tua própria incerteza,
Fica!
Não quero mais tropeçar
Nesse teu desacerto atormentado
Eu quero partir
Para lá deste turbilhão de emoções
Rodopio de enganos e desenganos
Desalentos, contradições.
Eu quero tecer meu próprio destino
Livre de mentiras e fingimentos
Traições.

Do outro lado destes dias cansados
Eu quero inventar a melodia
Que cale meu canto triste
Do outro lado deste tempo inquieto
Eu quero sonhar o recanto secreto
Refúgio de afagos e afectos
Sossego da ausência que dói em mim.
Eu quero voar para o outro lado do arco-íris
Viver o romance que amanse esta saudade sem fim!
ec
Maio.2005