Naquele dia, a vida parecia sem graça, não havia escola e chovia lá fora.
Dulce sonhava com o aconchego do seu quarto, com os afagos de sua mãe. O que ela gostava era de ficar no sossego da sua casa, até à hora de ir para a escola.
Ali, onde ficava, enquanto a mãe trabalhava, parecia-lhe um cativeiro, enfadonho e rotineiro. Dulce ficava entediada e nenhum jogo a animava. Aborrecia-se com a algazarra dos seus companheiros, agastava-se com a sua traquinice. Como a enfadava tanta tagarelice!
Naquele dia, a vida parecia sem graça, não havia escola e chovia lá fora.
Alguém bateu levemente à janela. Dulce voltou-se e viu uns olhitos tristes num rosto de menina colado ao vidro embaciado. A menina esboçou um sorriso pálido e acenou um adeus a Dulce, que lhe retribuiu, sem entusiasmo.

No rosto da menina, colado ao vidro embaciado, rolaram duas gotinhas de água transparente. Chuva? Lágrimas?
Naquele dia, a vida parecia sem graça, não havia escola e chovia lá fora.
Soprou uma brisa mais forte e a menina partiu num passo lento e hesitante, talvez à procura do seu caminho, talvez à espera que a chuva parasse.
Enquanto a menina se afastava, Dulce ficou a pensar. Quem seria aquela menina? Porque estaria tão triste? Não andava ela livremente na rua? Não podia escolher o que queria fazer e com quem queria brincar?
Dulce pensava, mas não compreendia o que impedia aquela menina de se rir.
Talvez um dia a voltasse a encontrar e lhe pudesse perguntar, talvez um dia a menina lhe pudesse explicar.
Naquele dia, a vida parecia sem graça, não havia escola e chovia lá fora.
Um dia, numa rua onde passava, Dulce encontrou a menina dos olhitos tristes, à janela do bairro onde morava.
Contente por encontrá-la, Dulce perguntou e a menina explicou, que às vezes a vida parecia sem graça.
Sempre em casa, cuidava do seu irmão mais pequenino, que não podia ficar sozinho.
Sempre em casa, limpava, lavava e cozinhava, enquanto a sua mãe se ausentava para trabalhar.
Sempre em casa, raramente ia à escola, pouco brincava, não jogava à bola. Sempre em casa...
Porém, nesse dia, à janela do bairro onde morava, os olhitos da menina estavam diferentes. Pareciam duas estrelinhas a piscar, contentes.
Surpreendida, Dulce perguntou e a menina explicou que a vida, afinal, tem muita graça.
Tem o Sol que aquece os dias e as Andorinhas a entoar lindas melodias.
Tem o Vento a sussurrar-nos os seus segredos e fadas boas que afastam os nossos medos.
Tem as Estrelas que nos sorriem, docemente, e a Lua a fazer-nos caretas, contente.
Tem príncipes e princesas que vivem nos nossos sonhos e duendes a brincar na noite, risonhos.
Tem o Céu azul, arco-íris alegres e coloridos, as searas douradas, ondulantes, e os campos floridos. Tem as cidades, os mares, os riachos e os rios e cada dia que passa surpreende-nos com a sua magia, com a sua graça.
Dulce recordou os olhitos tristes num rosto de menina colado ao vidro embaciado, no dia em que a chuva caía. Porquê?
Dulce perguntou e a menina explicou.
Há espaços tão alegres e divertidos, com tantos jogos e brinquedos, tantos livros de lindas histórias; com tantos risos de meninos e meninas, tanto tempo só para traquinar e tantos amigos para tagarelar.
Ah, quem me dera aí ficar enquanto a mãe vai trabalhar!
E, a menina acrescentou que não podia e não valia a pena chorar.
Afinal, a vida tem tanta graça.
Qualquer que seja o lugar, guarda tesouros secretos que podemos procurar, esconde mistérios raros que podemos desvendar.
Cada dia que passa, há uma nova aventura para viver, outra fantasia para sonhar.
Afinal, a vida tem tanta graça, cada dia que passa, qualquer que seja o lugar, a vida está cheia de lindas flores, de muitos aromas e de muitas cores, como a do seu nome – ROSA.
Para a Sara,
que, desde os 9 meses, chora
quando fica no Infantário / ATL
ec (Set-1999)