25 de outubro de 2012

A MENINA COM NOME DE FLOR

Naquele dia, a vida parecia sem graça, não havia escola e chovia lá fora.

Dulce sonhava com o aconchego do seu quarto, com os afagos de sua mãe. O que ela gostava era de ficar no sossego da sua casa, até à hora de ir para a escola.

Ali, onde ficava, enquanto a mãe trabalhava, parecia-lhe um cativeiro, enfadonho e rotineiro. Dulce ficava entediada e nenhum jogo a animava. Aborrecia-se com a algazarra dos seus companheiros, agastava-se com a sua traquinice. Como a enfadava tanta tagarelice!

Naquele dia, a vida parecia sem graça, não havia escola e chovia lá fora.

Alguém bateu levemente à janela. Dulce voltou-se e viu uns olhitos tristes num rosto de menina colado ao vidro embaciado. A menina esboçou um sorriso pálido e acenou um adeus a Dulce, que lhe retribuiu, sem entusiasmo.
No rosto da menina, colado ao vidro embaciado, rolaram duas gotinhas de água transparente. Chuva? Lágrimas?

Naquele dia, a vida parecia sem graça, não havia escola e chovia lá fora.

Soprou uma brisa mais forte e a menina partiu num passo lento e hesitante, talvez à procura do seu caminho, talvez à espera que a chuva parasse.
Enquanto a menina se afastava, Dulce ficou a pensar. Quem seria aquela menina? Porque estaria tão triste? Não andava ela livremente na rua? Não podia escolher o que queria fazer e com quem queria brincar?

Dulce pensava, mas não compreendia o que impedia aquela menina de se rir.
Talvez um dia a voltasse a encontrar e lhe pudesse perguntar, talvez um dia a menina lhe pudesse explicar.

Naquele dia, a vida parecia sem graça, não havia escola e chovia lá fora.

Um dia, numa rua onde passava, Dulce encontrou a menina dos olhitos tristes, à janela do bairro onde morava.

Contente por encontrá-la, Dulce perguntou e a menina explicou, que às vezes a vida parecia sem graça.


Sempre em casa, cuidava do seu irmão mais pequenino, que não podia ficar sozinho.
Sempre em casa, limpava, lavava e cozinhava, enquanto a sua mãe se ausentava para trabalhar.
Sempre em casa, raramente ia à escola, pouco brincava, não jogava à bola. Sempre em casa...

Porém, nesse dia, à janela do bairro onde morava, os olhitos da menina estavam diferentes. Pareciam duas estrelinhas a piscar, contentes.

Surpreendida, Dulce perguntou e a menina explicou que a vida, afinal, tem muita graça.
Tem o Sol que aquece os dias e as Andorinhas a entoar lindas melodias.
Tem o Vento a sussurrar-nos os seus segredos e fadas boas que afastam os nossos medos.
Tem as Estrelas que nos sorriem, docemente, e a Lua a fazer-nos caretas, contente.
Tem príncipes e princesas que vivem nos nossos sonhos e duendes a brincar na noite, risonhos.
Tem o Céu azul, arco-íris alegres e coloridos, as searas douradas, ondulantes, e os campos floridos. Tem as cidades, os mares, os riachos e os rios e cada dia que passa surpreende-nos com a sua magia, com a sua graça.

Dulce recordou os olhitos tristes num rosto de menina colado ao vidro embaciado, no dia em que a chuva caía. Porquê?

Dulce perguntou e a menina explicou.

Há espaços tão alegres e divertidos, com tantos jogos e brinquedos, tantos livros de lindas histórias; com tantos risos de meninos e meninas, tanto tempo só para traquinar e tantos amigos para tagarelar.
Ah, quem me dera aí ficar enquanto a mãe vai trabalhar!

E, a menina acrescentou que não podia e não valia a pena chorar.
Afinal, a vida tem tanta graça.
Qualquer que seja o lugar, guarda tesouros secretos que podemos procurar, esconde mistérios raros que podemos desvendar.
Cada dia que passa, há uma nova aventura para viver, outra fantasia para sonhar.

Afinal, a vida tem tanta graça, cada dia que passa, qualquer que seja o lugar, a vida está cheia de lindas flores, de muitos aromas e de muitas cores, como a do seu nome – ROSA.

Para a Sara,
que, desde os 9 meses, chora
 quando fica no Infantário / ATL 
ec (Set-1999)

3 de outubro de 2012

CAZUZA

    UM TREM PARA AS ESTRELAS
     Cazuza e Gilberto Gil

    São 7 horas da manhã
    Vejo Cristo da janela
    O sol já apagou sua luz
    E o povo lá embaixo espera
    Nas filas dos pontos de ônibus
    Procurando aonde ir
    São todos seus cicerones
    Correm pra não desistir
    Dos seus salários de fome
    É a esperança que eles tem
    Neste filme como extras
    Todos querem se dar bem

  Num trem pras estrelas
  Depois dos navios negreiros
  Outras correntezas

  Estranho o teu Cristo, Rio
  Que olha tão longe, além
  Com os braços sempre abertos
  Mas sem proteger ninguém
  Eu vou forrar as paredes
  Do meu quarto de miséria
  Com manchetes de jornal
  Pra ver que não é nada sério
  Eu vou dar o meu desprezo
  Pra você que me ensinou
  Que a tristeza é uma maneira
  Da gente se salvar depois
  Num trem pras estrelas
  Depois dos navios negreiros
  Outras correntezas