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Foto: Alfredo Cunha
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Numa rua qualquer, duma cidade que entardece, apressada, gente que sobe, gente que desce, gente que corre, cansada.
Já tarda a chegada ao aconchego do lar, já se adivinha o aroma quente do jantar.
Dói aquela mulher a quem a vida maltratou.
Andrajosa, de cabelos hirtos e desgrenhados, mãos enegrecidas pelas lixeiras, que mexe e remexe, volve e revolve, na ânsia de encontrar os restos, sobejos, sobras da gente que passa, migalhas que sosseguem a fome que traz escrita na boca.
Dói aquela menina, infância rasgada pela desdita. Menina franzina, de mágoa e palidez no olhar, menina ruína, pequena nuvem a chorar, a quem a adversidade se apressou a fazer mulher, que espera, e desespera, um pedacinho de sorriso, um afago, ainda que fugaz, que aquiete o medo, o queixume, a injúria, nódoa vil que traz cravada no corpo.
Dói aquele homem
dói aquela mulher
sepultados na vida pela guerra que não entendem, por ignóbeis e sórdidos conflitos alheios, que não querem.
morte
caos
estrondos
que nunca adormecem.
Explosão que deflagra,
destruição que alastra,
lábios sedentos da água que não há, corpos famintos do pão que não têm. Escuridão é a cor das suas existências sem vida, desesperança é o revés a que se resignam.
Dói a lágrima de quem sofre a desventura, o olhar perdido de quem não encontra o caminho, o braço estendido de quem mendiga uma réstia de paz, uma migalha de carinho, sobra de pão, nesga de sol, afeição.
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Imagine: John Lennon
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Qualquer que seja a cidade
qualquer que seja a rua
a verdade é que a vida
dói e o tempo cansa
quando a gente se põe a olhar em volta
quando a gente se põe a pensar
Se o olhar
em cada homem encontrar um irmão
se o braço que ataca pode abraçar
se mão que agride pode acariciar
se um sorriso aquece
e um beijo enternece
se a palavra à guerra for NÃO
então a paz acontece
a paz não é uma ilusão!
ec
Julho-2007




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